Para não esquecer...

UM DIA NA VIDA DE ABED SALAMA


Nathan Thraall
Um dia na vida de Abed Salama
Lisboa: Zigurate, 2023, 205 pp.
 

Parece um livro que pretende descrever a atualidade de hoje, mas é uma realidade que existe há muito. O clima de opressão, o apartheid, a discriminação, a repressão que se vive numa região policiada, vigiada, opressiva.

É o relato de um acidente de viação onde morrem oito crianças palestinas, que iam em visita de estudo. O acidente dá-se com um autocarro que se despista e incendeia o autocarro onde seguiam as crianças. Um pandemónio, angústias, desespero.

O acidente dá-se perto de um posto de controlo israelita que não mexe uma palha para socorrer as vítimas. O livro descreve a vida daquela zona de Jerusalém. Os controlos, a ação da polícia, os ódios, as amizades, apesar de tudo, os bilhetes de identidade que dão a acesso a certas zonas. Respira-se opressão por tudo o que é sítio. Mas fala também de amores, formas de encarar a vida. Em suma, um retrato impressionante sobre as relações entre israelitas e palestinos, os judeus e os muçulmanos.

Sobre o ambiente que se vive naqueles sítios, talvez fique uma ideia, numa reportagem de uma televisão que trata da reação de miúdos ao acontecido. “O motivo de interesse da história não era o acidente em si, mas a reação de alguns jovens israelitas, que exultavam com a morte das crianças palestinianas. Arik ficara consternado com a enxurrada de publicações e comentários no Facebook que celebraram a perda de vidas:

«Hahahahaha 10 mortos, hahahaha, bom dia»

«É só um autocarro cheio de palestinianos. Nada de especial. É pena que não tenham morrido mais.»

«Óptimo! Menos terroristas!!!»

«Notícias alegres para começar a manhã»

«O meu dia tornou-se uma doçura»

….e muitas das publicações eram escritas por estudantes do ensino básico e secundário…

…- Diz-me honestamente: ouves falar de um acidente em que muitas crianças palestinianas são mortas. O que é que sentes, fisicamente? Ficas feliz, em Êxtase?

- Walla – diz o amigo – A sério? Fico extasiado.”

(pp. 195-196).

Perante este livro talvez o Hamas seja melhor entendido. Sei lá… Mas que vale a pena lê-lo, acho que sim.

Nota: no Ípsilon de 10 de novembro há uma entrevista com o autor.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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