Palestina livre!

A apresentar mensagens correspondentes à consulta bem visto joão ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta bem visto joão ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

BEM VISTO, JOÃO!

Pode ser que o Senhor primeiro também nos processe e, quem sabe, com um pouco mais de esforço, processe o povo todo. Mesmo o Zé-povinho, por seu despacho, vai ter de deixar de lhe fazer o manguito quando ele, à semelhança da sua amiga Felgueiras, quiser pagar as custas do processo com o nosso dinheiro!
Os humores de Sócrates
José Sócrates apresentou uma queixa-crime contra João Miguel Tavares, do ‘DN’. Motivo? A seguinte frase: "Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte da Cicciolina."
Quando li o aforismo, confesso que já imaginava represálias. Não de Sócrates; mas da sra. Cicciolina, que durante longos anos teve casamento estável e consta que foi fiel. Enganei-me. Foi Sócrates, e não Cicciolina, quem se sentiu ofendido. E, ofendido, o primeiro-ministro decidiu inaugurar um novo capítulo na relação do governo com a opinião: processar qualquer colunista que duvide sobre uma carreira que parece mais esburacada do que um queijo suíço.

Só espero que o eng. Sócrates não amue por eu comparar o seu passado a um queijo. O mesmo já não posso dizer do queijo.
[João Pereira Coutinho, in Correio da Manhã de 4/Abril/2009]

escrito por Jerónimo Costa

LEIA O RESTANTE >>

JAZ MORTO E ARREFECE

O congresso do apagão jaz morto e arrefece.

Muito se escreveu a propósito do embuste laudatório, rodado em Espinho. Questões de empoderamento, atacando à má fila, de forma violenta, a legislação doméstica; pormenores e minudências ortográficas espalhadas a esmo pelo Magalhães e incursões várias da reputada escritora Margarida Moreira, pelo mundo da expressão epistolográfica, sob a forma de despacho, relegaram, sem apelo, o socratino congresso da confirmação latino-coreana para o inapelável limbo. Ainda assim, não querendo esboçar qualquer sopro pela memória do que convém esquecer, recupero dois textos que, na oportunidade, me escaparam de todo mas que, pela sua inegável qualidade e lucidez, merecem continuar a fazer caminho, ilustrando a já longa antologia do que é preciso denunciar sem rodeios:

O primeiro
["Fotógrafos rigorosamente vigiados no congresso do PS"]
esclarece, se ainda fosse necessário, o conceito de liberdade, segundo José Sócrates, através da lente atenta do fotojornalista do Expresso, Luíz Carvalho, e que, de todo, convém não esquecer. O segundo
["José Sócrates, o Cristo da política portuguesa"]
traça-lhe, em poucas linhas, a medonha biografia burilada a negro com a preciosa ajuda das forças ocultas que, paulatinamente e sem descanso, urge desocultar.
«Fotógrafos rigorosamente vigiados no congresso do PS

Na manhã seguinte à abertura do Congresso do PS, em Espinho, um assessor socialista mostrava-se radiante com a estratégia seguida para não terem deixado entrar os fotógrafos na zona reservada aos congressistas, na grande área do pavilhão. O que até hoje, em democracia, sempre aconteceu em todos os congressos de todos os partidos.

O resultado estava estampado nas páginas dos jornais da manhã de sábado: ali estavam as imagens neutras, bonitas, todas iguais, que davam a ver de frente o chefe projectado no grande vídeo-hall, a dimensão espectacular do congresso, sem haver fotografias intencionais que pudessem pôr em causa a solenidade da abertura.

Os fotógrafos, guardados por um assessor, foram autorizados a deslocarem-se ao meio do pavilhão, junto a uma câmara que dava de frente Sócrates a discursar. Puderam lá estar três rigorosos minutos, e voltaram escoltados de novo pelo assessor, para o lado mais distante do palco. No futebol está-se mais perto da baliza oposta do que ali durante a oratória de Sócrates.

A domesticação da imprensa visual funcionou. O Congresso foi visto de costas, não havia expressões de militantes enfadados, não se sabia onde estavam ministros e companhia, não havia retratos de conversas aos ouvidos, de olhares, de bocejos. Visto do alto da bancada, a mais de 100 metros de distância, Sócrates mal se via, encandeados que estavam os fotógrafos pela imagem gigantesca reflectida pelo video-hall. Melhor do que na Coreia do Norte, onde Kim Jong II consegue transformar a sua ridícula pequenez num homem aumentado a pantógrafo, de imagem fixa em tecnicolor comunista.

Foi tudo estudado ao pormenor no Congresso do PS. Depois de se ter salvo a brancura da abertura, Sócrates no sábado entrou, depois de almoço, pela frente do Pavilhão permitindo umas fotos rápidas no meio do povo. Depois não houve mais aproximação possível. Mas na manhã de domingo, quando a coisa estava a correr bem, os socialistas prepararam uma chegada triunfal de Sócrates.

Um grupo de velhinhas, que tinham viajado de autocarro socialista, esperavam Sócrates à saída do carro, os fotógrafos e cameramen podiam saltar-lhe em cima, entre atropelos e gritaria, sabendo os assessores que naquela altura a confusão ficava bem no retrato, mostrava envolvência, interesse, apoio, banho de multidão e dava a ideia que afinal Sócrates e congressistas tinham estado sempre acessíveis aos jornalistas. Competência, sem dúvida.

Na hora do encerramento os fotógrafos voltaram a ser escoltados até um canto do pavilhão e mais tarde conduzidos até ao meio, novamente junto a uma câmara de televisão. Quando Sócrates era aplaudido os congressistas levantavam-se e os fotógrafos pura e simplesmente não conseguiam fotografar nada a não ser cabeças.

No final, eu e o Alfredo Cunha rompemos o cerco e avançámos para o palco. Um polícia da segurança de Sócrates agarrou-me um braço e empurrou-me, perante os meus protestos veio outro que me voltou a puxar pelo braço e um deles ameaçou prender-me. Claro que nada disto é grave porque é habitual a segurança tratar com este mimo os fotógrafos. É um clássico praticado por todos os gorilas de todos os partidos.

Mas o que aconteceu foi a menina que estrategicamente segurava num ramo de rosas avançou, numa marcação teatral perfeita, ao encontro de Sócrates, um grupo de congressistas jovens fez questão em posar com o líder para um telemóvel. Tudo decorreu num admirável plano sequência, num aparente caos, mas que estava controlado, marcado. Os fotógrafos nervosos, ansiosos por captarem um momento forte, também ali estavam como figurantes à volta daquele protagonista.

O Partido Socialista usou de uma arrogância e de uma falta de tolerância democráticas graves, intoleráveis num partido que gosta de falar em liberdade, mas que na hora preferiu usar aquela ideia de jerico de Pacheco Pereira há uns anos atrás, quando decidiu proibir a circulação de jornalistas nos corredores da Assembleia.»
[Luiz Carvalho, fotojornalista do EXPRESSO]
«JOSÉ SÓCRATES, O CRISTO DA POLÍTICA PORTUGUESA

João Miguel Tavares
Jornalista - jmtavares@dn.pt

Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina. A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da "decência na nossa vida democrática", ultrapassa todos os limites da cara de pau. A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.

José Sócrates, no entanto, preferiu a fuga para a frente, lançando-se numa diatribe contra directores de jornais e televisões, com o argumento de que "quem escolhe é o povo porque em democracia o povo é quem mais ordena". Detenhamo-nos um pouco na maravilha deste raciocínio: reparem como nele os planos do exercício do poder e do escrutínio desse exercício são intencionalmente confundidos pelo primeiro-ministro, como se a eleição de um governante servisse para aferir inocências e o voto fornecesse uma inabalável imunidade contra todas as suspeitas. É a tese Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro – se o povo vota em mim, que autoridade tem a justiça e a comunicação social para andarem para aí a apontar o dedo? Sócrates escolheu bem os seus amigos.

Partindo invariavelmente da premissa de que todas as notícias negativas que são escritas sobre a sua excelentíssima pessoa não passam de uma campanha negra – feitas as contas, já vamos em cinco: licenciatura, projectos, Freeport, apartamento e Cova da Beira –, José Sócrates foi mais longe: "Não podemos consentir que a democracia se torne o terreno propício para as campanhas negras." Reparem bem: não podemos "consentir". O que pretende então ele fazer para corrigir esse terrível defeito da nossa democracia? Pôr a justiça sob a sua nobre protecção? Acomodar o procurador-geral da República nos aposentos de São Bento? Devolver Pedro Silva Pereira à redacção da TVI?

À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser "terreno propício para as campanhas negras"; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.»
[DN, 3.3.09]

escrito por Jerónimo Costa

LEIA O RESTANTE >>

MEMÓRIAS SOLTAS * XXI. o meu tio Joaquim

O meu pai tinha dois irmãos. Um irmão, o Joaquim, e uma irmã, a Adília. O meu pai tratava os irmãos por você, não que fosse beto afetado de Cascais, mas porque era mais novo quase vinte anos do que eles. Os meus tios tinham uma filha cada. Eu era o único macho na família. O meu tio vivia a cinquenta metros da minha casa. Eu fui estudar para Faro, “passear os livros” como se referiam a quem estudava, na altura, com algum desdém. E o meu tio Joaquim, pelo Natal, fazia questão de esperar o fim de semana para combinar a matança do porco. A mim cabia-me puxar pelo rabo do bicho. Eram só homens. A minha prima Amélia não se aproximava e a minha tia Dionísia só aparava o sangue que comíamos cozido, com vinagre e salsa.

Combinada a matança com quinze dias de antecedência, num domingo, lá aparecia o matador, a princípio o marido da minha tia, o Macário, e depois o Leonor Cachopeiro, mais o Fernando Brito, eu e o meu tio. Mais tarde, juntou-se o marido da minha prima Amélia, genro do meu tio, que veio perturbar a minha qualidade de convidado especial. Mas, afinal, nada perturbou, continuei a ser fulcral naquela história.

De manhã juntávamo-nos na oficina do meu tio. Havia sempre uns fritos e aguardente de figo. O Leonel, figura principal da cerimónia, bebia uns cálices. O Leonel era pedreiro, um excelente pedreiro de pedra. Dos melhores da zona. Magro, relativamente alto, com nariz proeminente, era sempre alvo da chacota do pessoal. Eu gostei sempre do Leonel. Hei de contar uma aventura em Lisboa com ele.

Na cerimónia era gabado quem matasse o porco mais rápido. O Fernando Brito, gozão, quando o Leonel denotava alguma dificuldade dizia sempre “Leonel, tenho a caçadeira no carro, queres que a vá  buscar?”. Para o Leonel, aquelas palavras eram autênticas facadas. Abanava a cabeça como se não entendesse o que se passava, sendo ele um exímio matador de porcos. O porco, depois de longa agonia, lá morria, não sei se do ferimento se de solidariedade para com o Leonel, para não o deixar mal visto.

De seguida, abria-se o porco e o Fernando Brito, subtilmente, espetava a faca no coração do cevado e apontava para o Leonel “estás a ver, Leonel? Não falhaste!”. O Leonel inchava na sua vaidade e dizia “eu bem me parecia que lhe tinha dado com o toque”. 

Seguia-se a comezaina. Sangue, cachola guisada e febras. As febras começaram a entrar na ementa depois do aparecimento do genro do meu tio, o João Martins, mais pródigo do que o meu tio. Dessa gente toda, só eu estou vivo. A última a partir foi a minha tia Dionísia, o ano passado. A minha prima Amélia não fazia parte desta história.

escrito por Carlos M. E. Lopes


 


LEIA O RESTANTE >>

NÃO JULGUES POR EU CANTAR

1.

Há no espectro político português um partido que exibe – como símbolo identificador – uma rosa estilizada; já por lá esteve um punho e, se a moda pega, porque em tudo o resto floresce, bem lá podem colocar um caule cheio de espinhos. Pode ser de rosa, não precisa ser tojo.

Hoje, este partido, talvez por no Porto mais florescerem os espinhos do empobrecimento, resolveu celebrar por aí três anos de indigente prática política e, depois de sabermos que as suas propostas para o futuro são basicamente duas: a regulação das tatuagens e piercings em menores de 18 anos e a esterilização de cães perigosos/raivosos, não podemos deixar de ficar agradecidos por tão atinentes preocupações que reconduzirão os jovens ao bom caminho desmetalizado e lhes permitirão circular num mundo onde não haverá senão cães dóceis e meigos, perfeitamente inofensivos. É este o mundo maravilhoso que, depois de três anos de tão profícuo trabalho, se abre no nosso horizonte. Escusamos de esperar por amanhãs que cantam. Hoje cantarão no Porto e o refrão, roubado à organização do evento,
"Não julgues por eu cantar/ que a vida alegre me corre / Eu sou como o passarinho, oh ai! / tanto canta até que morre"
só perde se não se concretizar, já!

Esta era uma das urgências.

A outra, que também deve merecer a nossa reflexão, prende-se com os gastos sumptuários na montagem da “festa”, enquanto o país se consome e mirra. Afinal as dificuldades têm sempre os mesmos destinatários; uns tantos conseguem passar por entre a chuva, incólumes! Dá que pensar.

(Jerónimo Costa)

2.
O mundo perfeito na redoma tecnológica

Duas horas custam 50 mil euros

É uma curiosa escolha, com um curioso primeiro verso
"Não julgues por eu cantar/ que a vida alegre me corre".
Vai abrir assim, repicante, o comício de hoje à tarde do PS no Porto, com um cante alentejano cantado a trinar:
"Rouxinol repenica o cante".
Os amadores das ideias zelosas não deixarão de anotar outra curiosidade: o cântico é um clássico da resistência à ditadura.

Se também visto da perspectiva logística, o comício do PS parece ser um legítimo espelho da imagem que quer dar o partido que hoje nos governa português, providentemente popular, mas a arreganhar-se todo da tecnologia que cria acontecimentos através do espectáculo político.

Os equipamentos são de ponta 40 toneladas de som, luz e robótica, mais um ecrã gigante, ledwalls e colunas de flexivision.
"É tecnologia nova, a segunda vez que se usa em Portugal. A primeira foi na semana passada, no Festival RTP da Canção",
confidencia Domingos Ferreira, leal técnico do partido, há anos produtor dos 'happenings' do PS, ainda Soares era secretário-geral, ainda depois por lá passaram Sampaio, Constâncio e Ferro até chegarmos a Sócrates
- "sim, ele é o secretário-geral mais tecnológico".
Forrado com um fofo chão prateado, uma alva brancura no tecto, o cenário de milhares de luzes vai assemelhar-se a uma perfeita redoma, criando um efeito fechado sobre um ponto o pequeno palco redondo de três metros, um palco de 360 graus à Obama. O orçamento para tudo anda entre os 40 e 50 mil euros: monta-se em 24 horas; ocupa uns 40 técnicos.

Atirado para o Pavilhão do Académico Futebol Clube, alugado como quinta escolha - Coliseu, Pav. Rosa Mota e Mercado Ferreira Borges já estavam todos tomados; da Praça D. João I, a céu aberto, houve medo... da chuva -, o comício decorre num local propício a emboscadas ideológicas a longa e muito estreita rua de Costa Cabral.

Para o acontecimento são esperados sete mil militantes socialistas, com três mil a vir de outros distritos. Quantos deles vão cantarolar o resto do cante
"Não julgues por eu cantar/ que a vida alegre me corre / Eu sou como o passarinho, oh ai! / tanto canta até que morre"?
(JN, 15 de Março de 2008 José Miguel Gaspar, jornalista)

escrito por Jerónimo Costa

LEIA O RESTANTE >>