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BREVES -31. o teatro das políticas culturais

Passados 37 anos e seis presidentes, tudo o que temos, segundo a prática unanimidade dos comunicadores com acesso habitual aos media, é uma democracia dos três partidos do “Arco da Governação”, e outros destinados a representar o papel de partidos de protesto (assim como uma espécie de coro da tragédia grega, ou dos bobos de Gil Vicente e Shakespeare …). Os indícios das mais recentes políticas culturais apontam para uma forma de organização parecida no campo do teatro: os textos privilegiados do “Arco da Governação” -- e os outros, destinados ao cumprimento da sua função de sub-financiado protesto.
Espero que os teatros saibam resistir, porque eles são, hoje, os refúgios da liberdade. Os teatros, na tradição ocidental, não seguem “pensamentos únicos”. São fóruns de reflexão e prazer estético, onde se discute sem limites a multiplicidade dimensional do ser humano, que -- não o esqueçamos -- é também social e política.
[Joaquim Benite, director da Companhia de Teatro de Almada]

escrito por Gabriela Correia, Faro

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HOJE É O DIA DO TEATRO

Porque hoje é o dia do Teatro então:


O mundo inteiro é um palco,
e todos os homens simples actores,
com as suas saídas e entradas,
com múltiplos papéis em actos
que abrangem sete idades.

Primeiro, temos a criancinha, choramingando e vomitando nos braços da ama.

Segue-se o estudante resmungão, com a sua mochila, o brilhante
rosto matinal, arrastando-se como um caracol para a detestada escola.
A terceira idade é a do amante, suspirando como uma fornalha, com uma
horrível balada em honra da sobrancelha da amada.

Depois vem o soldado, cheio de estranhos juramentos, barbudo como um leopardo,
zeloso da honra, brusco e ágil na luta, atrás da ilusória reputação,
mesmo na boca do canhão.
A quinta idade é a do magistrado, com o seu belo ventre redondo,
usando gorro próprio, olhar severo e barba de corte formal,
cheio de sábios provérbios e modernos julgamentos, desempenhando o seu papel.

A sexta idade faz o homem vestir-se como um arlequim, de calças justas,
óculos no nariz e algibeira ao lado; meias joviais, bem conservadas, um
mundo amplo demais para as suas enfraquecidas pernas, e um vozeirão
másculo a tornar-se num infantil soprano, cheio de silvos e sibilos.
A derradeira cena, término da memorável história da vida, é a segunda
infância, a do puro esquecimento...
Sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem nada.


[William Shakespeare]

escrito por Jerónimo Costa

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O SORRISO DE GATES

Bill GatesEste sorriso pertence ao célebre patrão da Microsoft, Bill Gates, como se sabe. O sorriso, que para mim nem é um sorriso completo, demonstra a sua satisfação por ir finalmente para a reforma. Reforma dourada, claro está. Porém, este senhor divide com instituições tentando mitigar as agruras da vida aos menos bafejados pela sorte.

Ou terá sido apenas “engenho e arte”? Creio que a sorte também teve aqui o seu papel. É como diz o Woody Allen na tese do seu filme, para mim fantástico, “Match Point”: se por um capricho da sorte a bola fica do nosso lado perdemos, se o contrário sucede, ficaremos ricos, famosos e … com uma reforma de se lhe tirar o chapéu. Ou a mitra. Quiçá a tiara. Ou outras coberturas ainda mais impantes de importância.

Não nos esqueçamos da Roda da Fortuna tão presente nas tragédias gregas e tão ao gosto dos Gregos
(A tragédia agora foi não terem ganho o Euro 2008),
copiada séculos depois pelo teatro isabelino. Quando ela desandava não havia deuses que valessem aos desvalidos humanos. Mas é claro que eram outros tempos: tempos (des) informáticos, (des) informados, (des) Internetados, (des) cibernautizados, (des) futebolizados. Em suma, (des) bloguizados!

escrito por Gabriela Correia, Faro

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A ACTA NO ALLGARVE

Sacrificando a praia, onde, valha a verdade, já fora de manhã, altura em que está mais livre de “turistas”, e fazendo uma pausa no trabalho -- elaboração de testes -- fui, no Domingo passado, ver teatro.

Adoro teatro quando o texto é poderoso, como o de “Stabat Mater”do Italiano António Tarantino, e é bem interpretado, como foi o caso, pela Maria João Luís. Recomendo vivamente ao meu putativo leitor, esta peça e sua soberba interpretação.

Mas voltando ao Domingo, às 4 da tarde, e com um sol esplendoroso, não é um horário propriamente da conveniência de qualquer um. Não importa, éramos poucos mas bons. E não utilizo o chavão à toa. Éramos exactamente 12 e entendidos no assunto, sem falsa modéstia. O texto é de Guy Foissy, francês nascido no Senegal, e é um texto bem actual. Olá se é! Aliás são 2 textos, soberbamente encenados e interpretados por 2 grandes actores: Paulo Matos e Luís Vicente que, para quem não é ou não reside no Allgarve, é o Director da ACTA -- Companhia de Teatro do Algarve.

“O Suicida” tem como tema o aproveitamento, por parte de certa imprensa e jornalistas, de actos do quotidiano envolvendo sangue, suor e lágrimas, tão ao gosto dos modernos “voyeuristas”das sociedades da (des) informação.

“O Segurança” espelha de um modo soberbo, (desculpem, não me ocorre outro adjectivo; talvez supino) a prepotência de quem se acha repentinamente com uma arma na mão e a quem é conferido o poder de julgar arbitrariamente os nossos inocentes actos, feitos sem qualquer outra intenção que não a que está à mostra, ou seja, à vista de quem quer ver e entender. O final é inesperado, mas o mais provável, se continuarmos a construir uma sociedade de medos e desconfianças, em nome de medidas securitárias.

Mais uma vez a entrega dos actores, sobretudo no segundo texto, é total e dá ganas de intervir; como aliás o verbalizou um espectador ao meu lado.

Se Brecht entendia que o teatro devia provocar no espectador uma sensação de Verfremdungseffekt, efeito de distanciação, para melhor entendermos a mensagem e sabermos que é uma peça de teatro que retrata a vida e dialecticamente nos envolvermos, (ao contrário do teatro =ilusão) aqui o espectador pode sentar-se em qualquer parte da sala e até no palco, onde me fui sentar na 2ª parte, parecendo então que nos encontrávamos na mesma rua onde se desenrolava a acção, como acontecia no Teatro Isabelino; e não nos iludimos: é a vida ali no palco.

Mais uma vez obrigada à ACTA, ao seu Director e ao encenador por nos trazerem teatro de qualidade, testemunhando assim que o Algarve não é só sol e praia.

No final, aplaudiu-se muito e em pé.

Que vos disse eu? Que éramos poucos, mas bons!

escrito por Gabriela Correia, Faro

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NUMA QUALQUER ESQUINA

Todos os meses, no início do mês, dou um saltinho

[de cento e tal quilómetros]
a Espanha, para comprar umas revistas, uns dvd... e
[para amortecer a despesa da viagem]
encher o depósito do carro
[o litro da gasolina continua lá mais barato trinta e tal cêntimentos, o que, num depósito de 40 litros, vale mais de 2 contos e quatrocentos].
No meio das compras, o saco, ontem, trouxe "Casa de Muñecas"
["Casa de bonecas"]
do escritor norueguês Henrik Ibsen, numa encenação da RTVE.

Surpreende-me que a "Casa de bonecas" seja vendida em quiosque -- quero dizer, ao grande público. Surpreende-me, porque penso
(na impossibilidade de isso acontecer)
em Portugal. Logo a seguir, recordo que muito do que por cá se vende em séries, fascículos,... tem origem em Espanha. E palpito com a esperança
[que espero não seja vã]
de que um dia destes nos cheguem cá, com tradução ou legendas, os Ibsen, os Cervantes, os Dante,... que em Espanha se encontram num qualquer quiosque de qualquer esquina.

escrito por ai.valhamedeus

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NÃO EXISTE

Com textos de Beckett se compôs uma peça em cena na Universidade Nova. É só até à próxima sexta. Deram-lhe o título:

Blame Beckett.
Não procure na imprensa: "não existe". Foi divulgado em locais "discretos", como o blogue Loucos de Lisboa ou no sítio da Nova
[do GTN - Grupo de Teatro da Nova].
Mas vale a pena. E muito.

escrito por Carlos M. E. Lopes

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WWW [6] os sem abrigo da bonifrates


Eloídes
Eloídes
Eloídes
Por estes dias decorre em Coimbra um ciclo de actividades, promovidas pela Cooperativa Bonifrates, sobre a temática dos SEM ABRIGO. Tem este texto o objectivo de divulgar o ciclo e, simultaneamente, convidar à visita ao sítio da Bonifrates, porque há por lá outras iniciativas de interesse presente e futuro.
Ciclo de actividades SEM NÓS NEM ABRIGO

a) Colóquio: 15 de Março, Casa Municipal da Cultura – Coimbra
b) Ciclo de cinema: 19, 21, 23 e 24 de Março TAGV – Coimbra
c) Exposição de fotografia: 19 de Março a 9 de Abril TAGV – Coimbra

Texto de apresentação:
«Eles estão aí... Não são zombies nem extraterrestres... São seres humanos, como nós, com quem nos cruzamos, tantas vezes sem os vermos, sem lhes dar sequer a hospedagem do nosso olhar. São chamados “sem abrigo”. Andam pelas ruas, sem morada, sem destino, sem endereço. E os nós que tinham vão-se desatando numa progressiva desvinculação e desfiliação não apenas social e profissional, mas também psicológica, afectiva e cívica. Filhos da cidade sem direito à cidadania, a sua identidade perde-se nos labirintos sinuosos das mais diversas situações e origens que os lançaram para esse outro lado, o lado escuro da vida, o reverso do espelho em que se furta a sua presença e a sua imagem: desemprego, deslocação, toxicodependência, imigração, pobreza, solidão, perturbações psíquicas, tantos são os caminhos que levam à perda do lar, da habitação, da morada, ao esquecimento do ser e à exclusão do espaço, do tempo e dos nós com que se tece a existência solidária. E, à excepção dos tempos festivos do Natal ou da Páscoa, junta-se à inexistência do tecto e da habitação a ausência do abrigo do nosso olhar.

Tomando como pretexto a apresentação da peça Eloídes, de Jerónimo López Mozo, a Cooperativa Bonifrates promove, numa convergência de esforços que reúne parceiros diversificados, um conjunto de iniciativas centradas no tema “Sem nós nem abrigo”, que procura chamar a atenção e “re-situar” o olhar naqueles que, não dispondo de um lar ou de um tecto em que ganhe corpo a sua existência individual, social e cívica, vêem diariamente desfazer-se os nós que os poderiam ligar a alguma coisa ou a alguém, sinal e símbolo de esperança. Nesse conjunto de iniciativas, ocupa um lugar naturalmente especial o olhar do espectador que solicitamos para a peça que vai ser estreada no Teatro Estúdio Bonifrates no dia 29 de Janeiro de 2007 e cuja apresentação se prolongará pelos meses de Fevereiro e Março. Mas, porque do olhar se trata, solicitaremos também a atenção para alguns dos olhares com que o cinema se debruçou sobre a realidade e a problemática dos “sem abrigo”, num ciclo promovido em colaboração com o Teatro Académico de Gil Vicente e a Fila K e que integrará ainda conversas sobre as associações que têm vindo a dedicar os seus esforços ao enfrentamento e à resolução deste problema. E ao olhar dos realizadores de cinema propomos acrescentar o olhar dos nossos fotógrafos: serão convidados aqueles que têm trabalhado com a Bonifrates e com o Teatro Académico de Gil Vicente para participarem numa exposição, a realizar no Foyer daquele Teatro, que terá como conteúdo as imagens com que tais fotógrafos nos ajudem a ver os sem abrigo deste tempo e deste espaço em que vivemos e que poderá ser complementada por outras intervenções na área das artes visuais. O projecto “Sem nós, nem abrigo” integra ainda um colóquio a promover em Coimbra, no mês de Março, para o qual a Cooperativa Bonifrates procurará mobilizar como parceiros outras entidades que têm privilegiado, na sua actividade, este campo e que tentará realizar, tanto para profissionais especialistas como para outros cidadãos interessados, uma abordagem multidisciplinar e abrangente da problemática dos “sem abrigo” na sociedade actual, cruzando o olhar do sociólogo, o do antropólogo e o do filósofo com a dimensão psicológica e a ético-política nas suas formas de intervenção e de transformação da realidade.

Assim, partindo do teatro, o projecto “Sem nós nem abrigo” procurará criar espaços em que se estabeleçam nós e se proporcionem abrigos para debater um dos grandes problemas do mundo contemporâneo.»
escrito por ai.valhamedeus [com um beijo para a Fátima Rodrigues, de quem recebi a notícia]

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