Palestina livre!

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CINCO PASSOS

I
O meu quarto tem cinco passos
Como os passos de uma cela
Mas não a de uma prisão
A de um mosteiro
Onde eu me recolhi por vontade própria.
A minha vida é em verdade muito simples
Quando a noite enfim me cansa
Durmo
E depois como
E aí o dia me consome
E então como
E depois durmo
A folga.
São muito simples os meus dias
Curtos
A vida em mim cumula os danos
E eu desabafo os meus lamentos
Ou toco modas de embalar
Crianças.
Às vezes vou ao pátio do convento
E fico olhando o ar
E o espaço que o ar preenche
Vem um passarinho esvoaçando
Que bate no telhado do alpendre
Não sei se é um pássaro ou um insecto
Os insectos aqui podem ser enormes
E há pássaros incrivelmente pequenos
Do que resulta uma dúvida
Mas ela também fica no espaço
E eu regresso
Regresso para a clausura
Da minha vã meditação.
A porta do quarto está fechada
Está quase sempre fechada
Pela determinação do ar condicionado
Mas nos dias em que chove
E a temperatura do ar fica agradável
E o ar livre
Eu gozo a felicidade de ter uma janela
Uma janela aberta que me alarga
Mas mesmo quando a janela está fechada
Outra perdura
E essa graças a deus nunca se fecha.
Passei o dia em casa praticando o monastério
Como outros e tantos dias que passei
Em que dedicado esse mistério pratiquei
Fiz tudo o que eu tinha para fazer
Incluindo algumas coisas que não fiz
Fi-las só mentalmente
Porque também
O meu monastério é mental.
De todas as coisas que eu possa fazer
E das que faço
Das que eu concluo
E das que permanecem em aberto
Ou definitivamente inconcluídas
Fica-me um gozo
Uma alegria triste de possuir aquilo
Acabado
Mas ter terminado a viagem de o fazer
Possuídas só porque posso ir lá e mudar uma letra
Ou uma palavra
Mas definitivas e estáticas
E não minhas
Na sua vocação de eternidade.
Tudo o que acontece no meu quarto
Ou fica dentro dele
Ou passa por uma frincha muito estreita
Que se abre na exaustão da paciência
Vai para fora como os pensamentos dos desenhos animados
Associados aos vapores eléctricos
Que se misturam entre a consciência
E o calor laborioso do computador.
Mesmo que eu ficasse todo o dia
Fritando os fusíveis com acontecimentos inexistentes
Com imagens decalcadas da minha própria mente
Mesmo que eu não escrevesse nada
Mesmo que eu não pensasse
As ideias continuariam saindo de mim
Como os cheiros e os pensamentos dos desenhos animados
Talvez então brancas luminosas e vazias.
É uma alegria branda o que eu sinto
Por perceber que ainda não morri
Mas isso é bem de ver só acontece
Porque uma ou outra vez já pensei nisso
Que um dia certamente vou morrer
E que fatalmente no dia em que isso acontecer
Será o dia em que eu terei morrido.
Não penso muito nisso
Mas também não procuro afastar de mim essa ideia
Sinto afinal uma estranha espécie de ternura por ela
Branda mas ainda assim emotiva
Para que espécie de quarto irei depois?
Em que espécie de poemas pensarei
Mesmo que os já não escreva
Ou mesmo que os nem pense
Mesmo que os só sinta
Ou que os nem sinta
Sim
O mais provável é que depois
Eu já não sinta nada
E como tudo parece sugerir
Já não exista nada
Nem mesmo eu.
Aí então um estranho pensamento me corrói
Quando ou pela hora ou do cansaço
Preciso desligar o computador
Reparo que quando dele a luz se apaga
Por um pequeno ápice depois
Que eu emiti a ordem para o desligar
E mesmo depois que ele já está desligado
Mas ainda não se apagou
Às vezes por um tempo mais que um ápice
Ele diz que está a encerrar
Mas mesmo depois que ele se apaga
Percebo pelo som de um barulhinho residual
Um subtil ruidozinho elétrico
Que ele ainda está a terminar de desligar
São cerca de dez segundos
Às vezes doze
Mas para quem espera o momento
De se reiniciar
Certamente valerá por toda uma inteira eternidade.
Não é que eu pense nisso a toda a hora
É mais quando desligo o computador
E mesmo assim nem sempre
Só raramente
Tem muita coisa aqui que me distrai
Muita natureza muita vegetação
Árvores grandes e outras árvores mais pequenas
Na base da maior e cujas folhas
Se ficam confundindo com as dela
Existem outras árvores mais pequenas
Arbustos e ervas quase imperceptíveis
Tem aquela folha mais tenra
Aquela folha mais jovem
Que de uma côr ainda não tão definida
Tem todavia um brilho
Tem uma luz que se irradia dela
Não é que ela pareça iluminada
A outra é que parece mais antiga
E embora mais consistente e mais substantiva
Plena de intenção clorofilina
É mais amorfa e mais tímida
Mais reservada
Executa mansamente a sua função
E mesmo que às vezes se deixe balançar no vento
É à outra que assiste o encantamento
Do dinamismo original do crescimento.
Essa é a folha da juventude
Que brande indiferente a sua ditadura.
Na árvore tem sempre muitas folhas
A não ser naquelas muito românticas
Quase despidas
Tem folhas de todo o tipo
Seja na árvore maior
Seja nas outras
É uma árvore grande
E as outras mais pequenas
São numa lógica viva e vegetal
Seus sucedâneos
Mas nesta árvore que eu vejo
Em que estaciono e penso
E tento ver outras coisas
P'ra lá do que está à vista
Não vejo o tronco
Encoberto pelas árvores mais pequenas
Árvores subsidiárias
Da maior
Que crescem à sua sombra
E em certos enquadramentos
Ou certas formas de ver
Sob a sua protecção.
Noutra árvore mais além
Vê-se já folhas mais lentas
Como uma árvore da vida
Que nunca morre
Mas se até as estrelas morrem
Os mundos os universos
Oblíquos dos pensamentos
Das conjecturas do caos
Porque não então também
Haveriam de morrer
As árvores?
Morrem algumas e outras quase mortas
Ficam cantando
Versos de poetas quiçá ultra-românticos
E vão secando
Quebrando os ramos
De alguma inquirição psiquiátrica
E é então
Que alguma estranha loucura
As redime
E as transforma em petróleo.
Nessas folhas amarelas
Que desmancham p'ra castanho
Os seus antigos fulgores
Se repete a mesma sina
Num dia rebentos frágeis
Noutro dia árvores inteiras
De folhas de várias lidas
E no fim por desconsolo
Mas grande fermentação
Folhas caídas.
Na frente da minha casa
Tem uma árvore redonda
Não sei se é árvore da vida
Se é a do bem e do mal
Mas uma coisa é cabal
É uma árvore velha
Situada e que cresceu
No centro do paraíso.
Na sombra que a árvore dá
Vejo a forma de uma mancha
Que me chama para lá
Mas fico olhando a paisagem
E a imagem não está lá
Está oculta na distância
Que entre mim e ela há.
Vejo que a vida é assim
Como uma árvore frondosa
Com folhas de muitas cores
Todas na idade certa
E a vida seguindo o rumo
Que as raízes também vão
Que a semente anunciou
Chegando em profundas grutas
Ou em altas circunstâncias
Sempre procurando a luz
E no fundo a água viva
Segue a sua vida longa
Fica lá por muito tempo
E de uma certa maneira
Nunca morre.
Todas as minhas idades
São como folhas de erva
Nas bermas da estrada larga
Como de mim a canção
Conta em outra incarnação
Fugazes folhas de erva
Penduradas numa árvore
Que a vida dá impressão
De ser eterna
São como a alta montanha
São como os bichos do mato
Que as minhas memórias contam
As que tenho e as que esqueci
As que sonhei ou vivi
E se incorporam.
É nessa sombra que fico e me detenho
No que será aquela estranha mancha
Escura e vazia
Mas de repente iluminada e flamejante
Olho-a por vezes longamente
Mas nunca consigo definir o que é
É uma mancha de sombra
Na sombra
Mas que arde uma nuvem fria
Mas flamejante
E é na intenção com que arde
Que de repente
Se torna quente
Às vezes incandescente
E que me atrai.
As coisas que eu faço
Se é que as faço
Já não são feitas num caderno
Instrumento passivo que embora arcaico
Possui o seu encanto
Faço-as num computador
Utensílio com o qual
Construí também um laço
Como que de afecto
E continuidade.
Faço também outras coisas com certeza
Toco viola ou divago
Em melodias simples que eu acho bonitas
Faço a cama canto salmos
E rezo
Faço às vezes o almoço
Ou o jantar
Faço castelos no ar
Lendo ou sonhando
Mas as que verdadeiramente me fascinam
São aquelas que são feitas
Nos momentos em que eu não faço nada.
Dizem que o Mário morreu
Pavão jovem
Dizem que morreu
De arsenicato
Dizem que de estriquinina
Para roer a indolência
Da esfíngica liqüidescência.
Má língua sabe-se lá
Se sombras
Se ditos de desditas nunca ditas
Malditas
Ditas de sexualidades
Incumpridas.
Morreu jovem o pobre Mário
E era um pavão altivo
Maior do que a própria sombra
Morreu ele de si mesmo
E da sua própria morte
P'ra ser eterno
E era tão jovem e belo.
Eu que agora já sou velho
E cheguei até aqui
Talvez porque em tantos dias
Não pensei em me matar
Em cada dia morri
E continuo
Como se fosse uma esfinge magra
Que não sabe se está viva ou se está morta.
As coisas que eu nunca disse
Ou que disse sem pensar
Como eu sempre digo tudo
Talvez seja por achar
Que coisas que eu dissesse
Sem pensar
Fossem afinal mais verdadeiras
Que as pensadas mas não escritas
Que eu me esqueci de pensar.
No quarto
Onde eu passo muito tempo
Sentado a tocar viola ou lendo
Ou escrevendo
Para que a base da estrutura não me doa
Levanto-me e ando
Como se fosse a vítima de um crístico milagre
E então ando
Com as mãos levantadas para o alto
Como quem se rende a uma ameaça
De bala
Cinco passos para cá e cinco para lá
E para cá e para lá
Os cinco passos do meu quarto.
Lá fora no corredor
Dá para dar doze passos
Ou com uma pequena curva
Adentrando área da sala
Seguir até à parede
E fazer dezoito passos
De seguida
Mas isso porém só me acontece
Quando a porta está aberta
E a casa respira toda junta.
Ando no mundo a vagar
Para cá e para lá
Talvez em rigor devesse ser
Para lá e para cá
Mas saiu assim
E eu achei bom
Essa ambiguidade nas duas direcções
Afinal
Quando eu vou para lá
Uma parte de mim já está lá e que me chama
E então eu vou
Para a parte de mim que naquele momento é o cá.
Na consciência do mundo
Vagando entre cá e lá
Vejo um sentido profundo
Talvez por fim cá e lá
Lá e cá todos os sítios
Sejam o mesmo lugar.
Nesse mundo tem o chão
E em cima do chão a casa
Na casa tem o meu quarto
E no quarto cinco passos
E nesses passos que dou
Vou sempre p'rò mesmo quarto
O quarto da minha casa
Onde eu oro o monastério
Que me faz mover-se o chão
Sempre p'ra lá da viagem.
II

Chove
Tem um urubu pousado
No alto de um poste eléctrico
Parece um ídolo
Uma imagem misteriosa e sagrada
De um ídolo negro
Soberbo mas não tétrico.
É a chuva
Que lhe dá a altivez
A chuva a que ele parece
Ser indiferente
Mesmo porque se não estivesse a chover
Ele jamais estaria ali
Nunca tão quieto
Nunca tão afirmativo
Nessa negra silhueta
Nesse absoluto imóvel
Forma pura de um contorno
Altivo e transcendental.
O tempo fica ventoso
Quando chove na floresta
Vem uma névoa fresquinha
Feita de gotas pequenas
Pequeníssimas
Mas que aos olhos parecem invisíveis
Visíveis só no entre
Do próximo distante intermitente.
Esse urubu fica ali
Pelo menos quando chove
Não vai p'ra nenhum buraco
Fica no alto do poste
Esperando que deixe de chover.
Mas depois quando faz sol
Mais vezes se é de manhã
Aparece o colibri
Que vem p'ra chupar as flores
Mesmo as que são muito pequenas
Como ele
Pequeníssimo também
É um pássaro extraordinário
Pára no ar
E bate as asas a um ritmo invisível
Imóvel porque as asas não se vêem
Para chupar à vontade
Dizem que beija mas chupa
O néctar
Da flôr
Quando voa
Numa direcção precisa
É incrivelmente veloz
E nessa dança de ritmos
Tão diferentes e ímpares
Parece ter um diálogo
Com o urubu.
Tudo isto vai e volta
Às vezes a chuva cai
Tem até a tempestade
Ribombarda trovoada
E árvores caem.
Quando o clima faz bom tempo
E o tempo fica mais lento
E uma brisazinha morna
Cria no ar um lamento
A minha saudade implora
Ao tempo uma nuvem mais
No dia que já se vai.
Hoje vi um colibri pousado
Nunca tinha visto um colibri pousado
Estava ali naquelas flores
Onde sempre o frenesi
Das suas asas ligeiras
Me encantam e impressionam
Não estava chupando as flores
Estava pousado num ramo
Depois em um outro ramo
Não sei
Talvez por as flores serem muito pequenas
E ele já ter chupado tudo de manhã
Talvez por ser fim do dia
Ficou lá um bocadinho
E depois já foi embora.
São os pássaros da minha vida
Um febril e juvenil
Outro altivo e compactado
Na chuva no céu cinzento
Imóvel de si ao tempo.
Nos lugares onde vivi
E às vezes volto a viver
Tem os outros passarinhos
Rabo-ruivos pintassilgos
Pardais e abelharucos
Andorinhas e cegonhas
Que são aves como eu
De arribação.
Ainda no outro dia
Estando eu a varrer o pátio
Com os meus olhos de vassoura de piaçá
Um enorme gato preto
Com ar de animal selvagem
Estava emboscado numas abas de piteira
Espiando dois passarinhos
Crias ainda pequenas
Como são ainda sem penas
As crias do sabiá.
Eis que aparecem voando
Volteando a meia altura
Batendo muito com as asas
A ponto de nem se verem
Bem de frente para o gato
Dois pequenos colibris.
O salto foi instantâneo
A decisão imprevista
De um salto paradoxal
De mais de um metro de altura
Bem um metro e meio talvez
O gato atacou feroz
Num gesto tão eloquente
Que deixou o colibri
O que lhe estava mais próximo
A um palmo de distância.
Foi uma decisão súbita
Desistiu dos passarinhos
Por outros que esvoaçando
E bastante mais pequenos
Que as próprias crias peladas
Estavam na frente da pita
Onde o gato
Preto e de cauda peluda
Estava emboscado esperando.
Haveria desta história
Mesmo o gato sendo preto
E a cauda sendo peluda
E o ar de animal selvagem
Alguma moral da história
Certamente que haveria
Se eu a quisesse inventar
Mas às vezes desta vida
A única moral que existe
É não ter moral nenhuma.
Os colibris lá fugiram
Sobreviveram
Já o mesmo não se diz
Dos pequenos passarinhos
Os pequenos sabiás
Assim que ganharam penas
E procuraram voar
Foram comidos
Não por aquele gato preto
Com ar de animal selvagem
De rabo peludo e sem moral
Mas pela mãe
Desse mesmo gato
Uma gatinha dengosa
Que nunca tinha feito mal a uma mosca.
E morreram
Esses dois passarinhos que nunca chegaram a voar.
Os gatos bastantes vezes
Matam não para comer
Mas p'ra brincar
É um jogo
Ou um entretenimento
Passarinhos e lagartos
Dos pequenos
Porque os grandes afinal
Não são para brincadeiras
Esses matam bicharocos
Para comer
E de todas estas coisas
Uma verdade respiga
Morrem as coisas na vida
Os tomates as alfaces
E há quem diga que até quando
Uma pessoa respira
O ar morre.
No outro dia senti
Uma impressão leve no ventre
E sacudi
Não sei se era um insecto
Ou só um grão de poeira
Nem sei mesmo se o matei
Mas pensei nisso
Como aqueles indianos
Os sadhus
Que têm o compromisso
De nunca matar ninguém
E andam nus varrendo o chão
Para que nenhum insecto
Que eles pudessem pisar
Seja morto à sua passagem.
É uma cândida prescrição
Própria de uma religião
E de uma tradição
Toda ela espiritual
Como se diz
E quanto se avalia
Ser a dos indianos.
Mas quando a morte se morre
Seja insecto ou animal
Mamífero réptil ou peixe
Mesmo as formas mais pequenas
Amebas protozoários
Fora de água ou afogados
Humanos e animais
Seres que vivem em geral
Por cruel que possa ser
Para os próprios ou seus próximos
Um dia morrem
E dentro de pouco tempo
Deles não resta mais nada
Primeiro os aromas bons
Depois os tecidos moles
Por fim células moléculas
Se separam
E afinal tudo regressa
Ao sempre eterno padrão
O passo é por um momento
De uma abjecta podridão
Mas logo a lógica pura
E a clareza da razão
Percebem a natureza
Do que chamei de padrão
Um princípio de fatal
Necessária e permanente
Total recomposição
Nada é permanecendo
Nem a arte nem a vida
Permanecem muito tempo
Só a ideia é eterna
E essa é feita de nascer
Tem um princípio que nasce
E que é feito de morrer.
Nesta cultura em que vivo
Gostam de enterrar os mortos
Fazem uma cova no chão
Com uma medida certa
E a pessoa fica lá a apodrecer
Ou o que resta da pessoa
Dentro de uma caixa
Uma caixa grande a que chamam caixão
Até ficarem só os ossos e os cabelos
E as unhas
Que ao que parece continuam crescendo
Mesmo depois de a pessoa já estar lá dentro
Até ficarem só os ossos
E as unhas
E os cabelos
E aí um dia desenterram-nos
E transferem tudo para uma caixa mais pequena.
Às vezes morre muita gente ao mesmo tempo
Como nas epidemias
Que sempre tem havido muito grandes
Como a da gripe espanhola
Que matou muitos artistas
E também outras pessoas.
Nessas alturas fazem um grande buraco
Chamado vala comum
E deitam p’ra lá os corpos
Despejam-lhes cal por cima
E então todos se misturam
E todos apodrecem igualmente
Ainda que em outra altura
Pudessem ter sido diferentes
Uns dos outros.
Pensa-se que essas diferenças
Se mantém
Mesmo se já se morreu
Porque uns irão p’ra jazigos
Outros para uma campa rasa
Umas mais humildes
Outras mais arranjadinhas
Outras gavetas aéreas
Derivadas das catacumbas
Mas isso não interessa nada
Porque aí já se morreu
E na morte
Somos todos realmente
Transcendentalmente iguais.
Na índia assam-nos em grandes piras
Construídas de madeira
Que navegam por um rio
E modernamente então
No ocidente
Incineram-nos em fornos
Como esses em que os nazis
Costumavam desfazer-se
Dos cadáveres dos judeus
E dos outros infelizes
Que eles haviam matado.
Uma vez estando em São Paulo
De passagem
E descendo estremunhado
Ao rés-do-chão do hotel
Entrei no elevador
E à medida que descia
Não tendo p’ra onde olhar
Reparei numa plaquinha
Da marca da companhia
Que o teria fabricado
Devia ser alemã
A companhia
Que ao que parece os fazia
Esses mesmo em que eu descia
Certamente esses e outros
E outras coisas de metal
Indústria em que como se sabe
Os alemães são altamente especializados
Schindler
Que era o nome de um senhor
Que salvou muitos judeus
De morrer
E pensei nesses judeus
Nos outros
Que morreram todos juntos
Todos enfileiradinhos
Envenenados pensando
Que estavam indo dar banho
E então desfalecidos
Zelosamente levados
Para os fornos que indiferentes
Os transformaram em fumo.
No tempo da inquisição
Queimavam-nos logo em vida
Mas tem modos de morrer
Em que se morre de gosto
Vai-se ao alto da montanha
E espera-se a morte lá
Ou como fazem no Tibete
Levam o morto para o alto de um penhasco
E esperam que os abutres o venham devorar.
Rituais fúnebres
Crenças eternas
Tudo afinal
Quando afinal já se morreu
E os sentimentos funéreos
As ânsias de eternidade
Já se esfumaram
E no eterno jamais
Já se dissolveram.
Há quem diga que ao morrer-se
A vida roda p’ra trás
Desbobinando a bobine
Do filme que a vida é
Sendo assim o ser que morre
Escoado afinal o tempo
Que se demora a morrer
Encontraria o momento
Aquele exacto momento
Em que nasceu
E os seus últimos suspiros
Seriam do tempo bom
Em que se foi pequenino.
Doce consolo
Tanto mais que com o tempo
Vai-se perdendo a lembrança
Do mesmo que se sentia
Quando se era criança.
Eu tive um amigo um dia
Africano de nascença
Com quem convivia muito
Embora por pouco tempo
Com quem fui um dia à praia
Eu ele e duas garotas
E nos meandros do encanto
Da paixão e do delírio
Dei comigo a fazer covas
Na areia
Eu e ele em frente a mim
Até encontrarmos um do outro
As mãos e rirmos felizes
E infantis.
Nunca mais senti assim
E o meu amigo de então
De quem eu gostava tanto
Voltou para Cabo-Verde
E eu nunca mais o vi.
Foi com ele que aprendi
Que aos africanos é dado
Serem p’ra sempre crianças
Podem ser já Preto-Velhos
Mas por alguma magia
Toda sim particular
Conseguem permanecer
Ligados ao sempre ser
Dessa criança imortal
Que nós nunca conseguimos
Por fim aprender a ser.
Mas nesse eterno aprender
É que me detenho e penso
Quando penso enternecido
No dia em que irei morrer
Numa distante fragrância
Numa infantil inocência
Algo mais do que uma flor
No azul imaculado da distância.

III
Eu vivo na floresta
À beira de um rio que corre
Corre manso como eu
Nem se vê a correnteza
Mas corre
Vivo no passo e no tempo
Dessa correnteza mansa
E um dia vou morrer
Como o rio que de tão largo
Tão imenso tão espalhado
Não se percebe que corre
Mas mansamente a seu tempo
Quando o momento chegar
De encontrar outra maré
Mesmo parecendo lento
Chega no fim do trajecto
E desagua no mar.
Nem sempre vivi aqui
'inda me lembro do tempo
Em que passava parado
Sem tempo nem pensamento
Fechado indagando audácias
Na penumbra do meu quarto
E do que eu via animado
Onde não havia nada.
Tentei em vão aprender
Dessas coisas o sentido
Talvez para saber como sorrir
Entender a existência
Proclamar outras passagens
Indagar por entre as sombras
Quiçá p’ra tirar férias de existir
E não pensar
No inabsolvível dever
De comer da amarga broa até ao fim
E de assim poder dizer
O que me parecia ser
A evidência do não
Dizer não por uma vez
Ao que pareceria óbvio dizer sim.
Nunca se aprende nada infelizmente
Só o que já antes se sabia
Mas não se queria aceitar ou compreender
Em todo o caso sei que um dia morrerei
E esse dia vai acontecer
E eu estarei presente
Despedir-me-ei da vida
Como quem deixa um palácio
Olhando o chão e as paredes
Dando adeus p'rò pessoal
Cada pessoa
Cada ser
Que ali se faça presente
E quando isso acontecer
Cá estaremos para ver
Como quem foi ao cinema
E dormiu durante o filme
Só acordando afinal
Quando as letras do final
Apareceram na tela
E as luzes da sala escura
Se acenderam.
Não é de hoje que desconfio
De que isso pode ser
Uma metáfora boa
Do que pode acontecer
Que todas as sensações
As lástimas o prazer
Todas as implicações
Do que poderia ser
Uma vida bem vivida
Fossem afinal imagens
Projectadas numa tela
Por um mecanismo oculto
Uma máquina invisível
Sonhadas só p’ra consumo
De um fantástico momento
Que é eternamente agora
E mesmo sem pensar nisso
Seja esse momento activo
O que nos faz respirar.
Sinto-me o ar preencher
Com o ar que me preenche
Sinto-me o peito crescer
As arcadas das costelas
As fibras reconstruídas
E mesmo quando me esqueço
Uma força em mim me obriga
A voltar a respirar
No fundo isso é por que sei
Ou porque o meu corpo sabe
Que no dia em que eu parar
Terei morrido.
Tenho uns amigos que dizem
Quando alguém morre
Olha «deixou de fumar»
E eu fumo mais um cigarro
Mas não deixo de fumar
Parece que o cidadão
Compra a morte em cigarrinhos
Mas vivendo
Vou levando o respirar
À última respiração
E a sanha continua
Até eu não respirar.
Às vezes minha mulher
Faz-me a pergunta retórica
Para que tomo eu os comprimidos
Se depois fumo cigarros
E eu às vezes penso nisso
Dá-me uma espécie de medo
De morrer
E penso que talvez fosse
Melhor deixar de fumar
Mas penso nos meus amigos
No que costumam dizer
De quem morre
E deixo de pensar nisso
P'ra pensar em outras coisas
E penso ruim será
Quando eu deixar de pensar.
Quando penso nessas coisas
Sinto em mim bater-se um ritmo
Um ritmo que bem conheço
É o da passagem do tempo
Do tempo que em mim se escoa
Onde eu sinto o batimento
De uma ideia muito boa
Em que nenhum pensamento
Nenhum soluço engolido
Nenhuma música soa
Só o eco de um momento
Total e descontraído
Em que eu já não sinta nada
E em que já terei morrido.
Gostava de ter sido pianista
Tocar emotivamente
Os nocturnos do Chopin
Baladas do Debussy
Mastigado o Czerny
Ter tocado inteiro o Cravo Bem Temperado
As invenções a três vozes
Quem sabe sorte e trabalho
Me levassem a tocar
As coisas mirabolantes
Como o Sviastolav Richter
Mas todas essas ideias
Que poderiam ter sido e nunca foram
Também irão ter morrido
Nesse dia em que eu morrer
E quem contará então
Quem as poderá ouvir
As histórias dessas coisas
Que de um modo ou de outro nunca
Jamais podiam ter sido?
Não as sei nem o indago
Que afinal não são diferentes
Das que eu fiz e por quem pago
O tributo de as ter feito
Mas essa colossal dívida
Terá expirado
No momento em que efectivo
Eu mesmo tenha morrido.
Penso nisso mas não minto
Também sinto e acredito
Que haja outra coisa qualquer
Faz tempo que penso nisto
Umas vezes por mania
Outras por intuição
Talvez fique algum registo
De toda essa confusão
Ideias subliminares
Pensamentos
Formas puras
Sentimentos intensivos
De intensas formas de vida
Talvez as grandes paixões
Não se dissolvam no tempo
E das emoções contidas
Nessa forma de viver
Talvez fique alguma coisa
Talvez se fixe por fim
Em algum registo akâshico
Como outros antes de mim
Já conceberam
O que aconteceu na vida.
Eu sou como um operário
Que cresce na construção
Se construindo a si mesmo
Vou construindo edifícios
Líquidos e imateriais
De beleza e ideologia
De fina tecnologia
De uma antiga construção
De um palácio de cristal
Que nunca foi construído.
É assim que a vida é
A de todas as pessoas
Ela vai-se construindo
Desde o princípio da vida
Acumulando experiências
Desenhando arquitecturas
De futuras construções
Subindo a escada da vida
Aduzindo as evidências
Para novos patamares
Vai-se ganhando no tempo
Mais altura
Mais visão e atitude
Olhando a paisagem longe
Reforçando os alicerces
Tijolo sobre tijolo
Aumentando a construção
E depois de alguns andares
Quando o prédio está de pé
Preparado para a festa
Dos últimos acabamentos
Descobre-se que a construção
Bonita de construir
Bonita de ver de fora
Ou de qualquer perspectiva
Por que se queira enxergar
Foi feita e pouco mais tarde
Um momento mais à frente
Irá ficar concluída
E será então perfeita
De beleza imaculada
P'ra não morar lá ninguém.
Já pensei juntar dinheiro
P’ra me mandarem cremar
E no caso de eu morrer
E isso acontecerá
O meu corpo não ficar
No chão a apodrecer
Mas pensando melhor nisso
Até isso eu acho em vão
E prefiro deixar aos vivos
O embaraço da escolha
Ou o diminuto consolo
Da decisão.
Os que me conhecem certamente terão pena
Os mais queridos e os que me querem chorarão
E passados alguns dias
Já tudo terá passado
Lançarão as minhas cinzas
Em algum lugar sagrado
Na natureza na vida
No mar sei lá ou então
Guardarão numa caixinha
Para poderem ficar
De recordação
E em nada disso eu terei
Já qualquer opinião
Não será da minha conta
E é mesmo melhor que não
Porque se fosse
O mais certo é que eu dissesse
Ainda não.
Actualmente tem no mundo
O ritmo da pandemia
Toda a gente anda assustada
E com medo de morrer
Mas eu ponho em perspectiva
A que me permite ver
As coisas que eu já pensava
Antes de haver pandemia
E vejo que mesmo um dia
Que virá mais uma vez
A própria espécie humana
Virá a desaparecer
Não quero ser tolerante
A ideias decadentes
Haveremos de morrer
E quem sabe nos profundos
Recantos das florestas
Pequenos grupos virão
A formar remanescentes
Que serão
As formas principiantes
De uma nova humanidade
Que nada recordará
Só por lendas ou visões
Das grandes tribulações
Que esta que actualmente vive
Suportou
E em que um dia fatalmente
Virá a desaparecer.
Será então um só corpo
Composto de muitos seres
De muitas cores e prazeres
E hábitos peculiares
Que como todas as coisas
Que são vivas
Algum dia irá morrer
Por ter ficado doente
Ou ter sido vitimada
Por algum órgão que tenha
Deixado de funcionar.
Como um dia já senti
Sinto-me então irmanado
Com esse destino enfim
De sermos todos um só
E as sensações que sentimos
As emoções as ideias
De todas as criaturas
Que sentem pensam e são
Sejam todas uma esfera
Como aprendemos na escola
Que existem a biosfera
A litosfera geológica
A atmosfera aérea
Na esfera que todos somos
E nessa ideia geral
Sinto um sentido comum
O de sermos afinal
Tudo o que existiu existe
Existe ou existirá
Num grãozinho de poeira
No cosmos universal
No tudo em tudo total
Que o Pessoa definiu
E nos é de utilidade
Todo o ser todo o não ser
Que existe no ser que é
Desde o sopro inicial
Até ao suspiro exangue
Que soltamos no final
Tudo total.
Percebo que quando quero
Falar do que me segreda
Aquele instante fatal
Me fogem os pensamentos
E só me fica uma ideia
Que é toda transcendental
A de que não há instante
Todo o instante é só um
Que se desloca no tempo
E que o tempo é um instante
Relativo
A outro tempo maior
E esse a outro e o outro a outro
Que não cabe na distância
E então vejo sem ânsia
Que o momento de morrer
É aquele em que aprender
A voltar a ser criança.
Quando às vezes delirando
Vejo coisas que não há
Pressinto uma nuvem lá
Onde o tempo vem chegando
E a curva dobra o destino.
Não é porque vá chover
Ou o tempo esteja embrulhado
É porque um alerta vindo
Uma clareira se abrindo
No céu que ali se faz claro
Me vem dizer que estou indo.
Lá vejo uma cova aberta
De dez palmos escancarados
Onde possa caber eu
A minha nuvem doirada
E ainda mal-ajeitada
A ponta da minha asa.
Vejo uma cova que arde
Como uma pira indiana
Em frente da minha casa.
Quando saiu o último poema de um muito amado poeta
Que diz «A Morte sem Mestre»
Pensei
Para que preciso eu de um mestre
Se a morte não me incomoda
Incomoda-me é a vida
A vida sem analgésico
Mas a vida segue vaga
Com ou sem
Serena ou não
E tudo o que o tempo apaga
O pensamento não erra
A consciência é que não
E entre um e outra divaga
A eterna interrogação
Posso morrer descansado?
Será a vida só isto?
E a morte com ou sem mestre
É que é a mestra da vida.
escrito por Joaquim Morgado

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ANDA TUDO MAL -32- a fortuna de carlos slim


Este da foto é o empresário mexicano Carlos Slim, novamente o mais rico do globo, segundo a revista 'Forbes',..

...com uma fortuna de 85.800 milhões de dólares, uma quantia equivalente ao PIB do Uruguai e da Bolívia juntos. Ou, se se preferir, uma quantia superior ao PIB de 127 países do mundo.

...mais uma prova de que se pode ser verdadeiramente rico. Se outros não o conseguem, é porque não trabalham como trabalha o senhor Slim (um exemplo a seguir pelos habitantes daqueles 127 países). Não trabalham... ou qualquer coisa assim...

escrito por ai.valhamedeus

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NÃO CONFIO EM CACHORROS


Esta é uma imagem que circula pelo Facebook com alguma intensidade vírica.

“Não confio em pessoas que não gostam de cachorro, mas confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”. Não sei se esta frase é de Einstein ou não. Nem me interessa
(embora me incline para pensar que não é): 
se for, é (mais) uma prova de que um grande génio pode dizer uma grande asneira.

Já torço o nariz à primeira parte da citação, mas admito-a: primeiro, porque qualquer pessoa tem o direito de (não) confiar em quem entender; segundo, porque se por “não gostar de cachorro” se entender “fazer mal aos animais”, a frase começa a “fazer sentido”.

Agora… a segunda parte é que é asneira completa, se atendermos ao que ela supõe; isto é, não que afirma o referido direito de alguém (não) confiar em quem entender, mas que o facto de um cachorro “não gostar” de uma pessoa significa que essa pessoa não é de confiança. Pelo seguinte:

  • Os factos desmentem esta “teoria”; se ela fosse verdadeira, todos os animais, humanos ou não humanos (cachorros incluídos), que passam na minha rua seriam de pouca confiança: há um cachorro que ladra violentamente a tudo o que seja animal movente e lhe passe na redondeza… E, se pensarmos naqueles cachorros que se atiram aos donos, o que é que deveríamos concluir daí?
  • Se a frase fosse verdadeira, eu próprio seria… um monstro: na verdade, eu não gosto de cachorros, nem de qualquer animal em geral. Não gosto, no sentido de que não ando aos beijos ou às carícias aos ditos, nem nada que com isso se pareça – embora seja incapaz de fazer mal a qualquer animal, a não ser àqueles que, sem minha permissão, me entram em casa (designadamente moscas e quejandos). Dito de outro modo, respeito eu mais os animais em geral do que alguns animais (sobretudo cães) me respeitam a mim.

E anda Einstein (ou, mais provavelmente, alguém por ele) a dizer que… que não sei quê?! Valha-o Deus, se pode…

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -31- as festas de fim de ano

Na imagem seguinte, podem ver-se os programas das festas de fim de ano de 32 câmaras municipais.


[clicar para ler melhor]

Nalguns casos, especifica-se o orçamento: a câmara de Viseu, por exemplo, gastará quase tanto como a do Porto (respetivamente, 35 mil euros e 40 mil euros). Noutros (por exemplo, no da de Lisboa), o orçamento não é divulgado. Receio?...

...receio de quê?!, perguntará o meu leitor.Por exemplo, receio de que as pessoas façam contas. Sei que, há poucas semanas atrás, um serviço (importante, para todo o país e mesmo para o estrangeiro) da Câmara Municipal de Lisboa precisava de um disco externo para continuar a trabalhar. A Câmara respondeu que não tinha dinheiro para a aquisição (isto anda tudo muito mal!) -- pelo que alguns funcionários propuseram aos demais que se quotizassem entre si para o comprar. Se estourassem menos 2 ou 3 foguetes no final de 2013, talvez sobrassem -- digo eu -- os (menos de) 100 euros que custa o disco externo.

escrito por ai.valhamedeus

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AS NOSSAS CAUSAS - QUE SE FODA O FMI

Recordando um momento histórico criado por José Mário Branco. Neste momento, novamente histórico:

[a letra toda está aqui]


Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho?


Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso!
Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...
escrito por ai.valhamedeus

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DO CONTRA [82] poema do menino jesus

No dia de Páscoa, convido o meu leitor a pensar
[se ainda o não fez]
nas características estúpidas de um menino Jesus filho de uma mãe-mala e de uma pomba feia e estúpida, de um Jesus que recorrentemente morre como se não aprendesse de um ano para o seguinte...
...e, já agora, a confrontá-lo com um menino Jesus que corre atrás das raparigas, adormece no colo e... diz mal do Deus velho e estúpido que está nos céus.
Obviamente, o nosso guia será Alberto Caeiro
[e por que não há-de ser esta imagem do menino Jesus "[...]mais verdadeira / Que tudo quanto os filósofos pensam / E tudo quanto as religiões ensinam?"]


Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
[Alberto Caeiro]

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -30- as contas da crise

Da Conta Geral do Estado de 2009, 61 por cento dos 2,2 mil milhões de euros foram para a banca, 36 por cento para as empresas e 1 por cento para o apoio ao emprego. Quem o diz é o Tribunal de Contas, que salienta mais uma vez a falta de rigor dos números da Direcção-Geral de Orçamento.

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -29- até a pt

Depois das notícias de ontem relativas aos lucrozitos dos bancos, mais uma prova de que nem a PT se safa:



Os pormenores sobre a distribuição, pela PT, de milhões limpos de impostos estão na edição de papel do Correio da Manhã. A síntese:
negócio da venda da VIVO dá prémio a milhares de investidores. A empresa liderada por Zeinal Bava vai distribuir 1,5 mil milhões de euros. A primeira fatia será em Dezembro.
Mais imposto menos imposto... Na verdade, não hão-de fazer grande falta os impostos faltosos, dado que se prevê aumento de impostos já a partir de Janeiro. Pagando nós, os que nunca conseguimos fugir, não há necessidade de pagarem os investidores da PT. Não é?

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -28- e os bancos, cada vez pior


Ora aqui está mais uma prova de que isto continua a continuar tudo muito mal. Os bancos, esses, então... coitaditos! 4 com mais lucros de 53 milhões, dá, em média... ora deixa cá ver... é só fazer as contas, mas não é um balúrdio. Nada que justifique um eventual recuo na quebra do IRC!
[só faltaria mais essa!...]
[veja outras provas de que isto anda mesmo tudo mal]

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -27- negou, está negado!

[está aqui ou aqui]

Anda mesmo tudo mal.

E o que piora, ainda mais, tudo são as calúnias e as mentiras com que se pretende destruir determinadas pessoas profundamente honestas. É o caso do ministro do Trabalho, Eric Woerth: querem as tais calúnias que acreditemos que o senhor teria recebido dinheiro da herdeira da l'Oréal, Liliane Bettencourt, que teria também feito chegar algum ao actual presidente da França; mas o presidente
[que é quem sabe e é outro homem profundamente honesto]
"negou com veemência" tais calúnias. Negou, está negado! São, como se sabe, as tais forças de desestabilização
[que, em terras lusas, também recorrentemente procuram atingir o presidente do conselho português].
E, como o profundamente honesto Sarkozy já avisou,
se se começa a recuar no que quer que seja, ninguém sabe como é que isto termina...
escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL -26- para uns mais do que para outros

Cavaco SilvaComo se sabe, estamos a morrer de crise. Por isso, é preciso união de todos os portugueses, diz Cavaco Silva
[um senhor que habitualmente se escusa a comentar o que quer que seja, se for o que se sabe].
O que é esta união? há-de ser qualquer coisa no género de uma reforma das pensões e da lei laboral através da qual os trabalhadores ajudem os patrões, numa santa união, a salvar a economia do País.

Como se sabe, estamos a morrer de crise. Por isso, é preciso congelar salários dos trabalhadores, para salvar a economia do País. Bom... quer-se dezer... nem todos os trabalhadores. Por exemplo, os da Caixa Geral de Depósitos, não: esses trabalham "em regime concorrencial".

Como se sabe, estamos a morrer de crise. Por isso, é preciso aumentar os impostos, diminuir os subsídios de desemprego,... para incentivar a procura do emprego e salvar a economia do País. Os políticos dão o exemplo, com uma diminuição de salários de 5%. Bom... quer-se dezer... alguns políticos, apenas: para já, ficam excluídos assessores e adjuntos; veremos quem mais, nos próximos dias...

Para esta união nacional com o objectivo de salvar esta economia do País, não me convidem. De livre vontade, não entro.

escrito por ai.valhamedeus

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DO CONTRA [60] especial campanha do anticristo

Papa Bento XVISuas Santidades vaticaninas já avisaram -- e é bom que toda a cristandade, mesmo a que não é católica nem sequer cristã, saiba: o anti-Cristo mundial anda a lançar por aí uma diabólica campanha contra Sua Santidade Reverendíssima, o pastor alemão Bento 16 (B16). E é bom que se recordem algumas das fases dessa orquestrada campanha, cujo último episódio é a difamação segundo a qual B16 teria vivido de olhos bem fechados à pedofilia de clérigos que agora excomunga.

Recorde-se, pois:
  1. Já se recriminou B16 por querer mais latim e mais gregoriano nas missas. Ora, toda a cristandade sabe que o latim é a língua que todos os cristãos romanos falam -- pelo que celebrar a missa em latim incentivará a participação democrática de todos os fiéis na sacrossanta Eucaristia. E o gregoriano?! qualquer cristão católico sabe que se sente enlevado às divinas alturas quando entoa essa marc(h)a musical católica
    [tudo hinos muuuuuito mais participados que qualquer coral protestante].
    E se forem hinos gregorianos cantados em latim, à boa maneira ortodoxa, ufff!... então é que será coisa de sacrossanto orgasmo, que é como quem diz êxtase, divinal.

  2. Também há quem tenha censurado B16 pelas ameaças de excomunhão dos políticos que apoiem o aborto ou políticas de contracepção. Como se a política papal não fosse a política divina: pense-se só, a título de exemplo, na Virgem Mãe. Como toda a cristandade sabe, se todas as mulheres Lhe seguissem o exemplo, quero dizer, se todas as mães
    [e, sobretudo, todas as não mães]
    fossem virgens, certamente que não haveria necessidade de abortos e contraceptivos
    [e quem não vê isto é porque só pensa naquilo].
  3. Já se recriminou B16 por ser contra a "despenalização da homossexualidade" ou por ter demonstrado por A+B aquela ideia
    [brilhante. divinalmente brilhante. secundada pelo senhor dom josé de lisboa]
    segundo a qual a utilização do preservativo propaga a sida
    [recordo que segue nisso Sua Santidade o antecessor JP2, o qual cancelou a participação de Daniela Mercury num concerto de Natal em Roma, por esta cantora ter participado numa campanha a defender o uso da camisinha].
    Ora toda a cristandade sabe que, de facto, a sida se propaga na proporção directa da utilização do preservativo: só o capeta é que apregoa o contrário.

  4. ...e poderíamos continuar a lista. Mas, por falta de espaço, fiquemos por aqui, só com mais um episódio desta maligna campanha contra SS B16. Noutros tempos, o convite da presidenta da Argentina para que B16 visitasse o país foi associado à eventual hipótese de a senhora presidenta despenalizar a pedofilia. Já então andava o Anti-Cristo a preparar a demoníaca cruzada contra Sua Santidade... Porque, sim, as forças do mal, como toda a cristandade sabe, não têm descanso.
escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -25- até para a icar

Duas notícias inocentemente sem qualquer relação:
  1. Em dia de greve, deve recordar-se que isto anda tudo mal. O défice é o que se sabe
    [mesmo não se sabendo se está tão mal como o da Grécia],
    e a dívida pública é também o que se sabe e o que se sabe é também o que devemos e o que não produzimos... Tudo razões que provam que o Governo tem razão em permanecer intransigente no congelamento dos salários...

    ...até porque, como se sabe, há necessidade de dinheiro para outras "coisas".

  2. Sua Santidade o Papa das cavernas vem a Portugal, nas fronteiras do próximo Verão. Celebrará missa em Lisboa, Fátima e Porto. A Câmara do Porto, conhecida pela sua luta contra os lobbies
    [como, por exemplo, o do FCP]
    já assumiu as despesas do altar; outro tanto não fez (ainda) a Câmara de Lisboa: inicialmente disse-se que António Costa lavaria daí as mãos, mas um esclarecimento posterior esclareceria que a decisão ainda não está tomada, pelo que António Costa poderá seguir o caminho de Sua Santidade Rui Rio.

    De qualquer modo, o altar de Lisboa também não custa nada do outro mundo
    [D. Carlos Azevedo, coordenador da comissão de festas, garante mesmo: “Queremos que os custos sejam mínimos, simples e sem gastos supérfluos, tendo em conta a actual situação social”]
    [e mesmo que seja do outro mundo, são pessoas de outro mundo, o celestial, que estão em causa]:
    apenas uns 200 mil oiritos, valor muito longe do merecido valor de uma missa celebrada por Sua Santidade. Sabe-se que a Igreja gostaria que Lisboa pagasse altar; mas a autarquia não recebeu qualquer pedido nesse sentido
    [mas sabe-se também que Rui Rio "ofereceu-se para suportar o custo do altar, sem que o Patriarcado tenha pedido alguma coisa"].

    Face a tal promiscuidade
    [o Estado também paga metade das despesas relacionadas com o séquito papal]
    e indecisão, faço uma proposta: em Lisboa esperam-se 150 mil fiéis; basta que se feche o recinto, que se ponha uma bilheteira com bilhetes de entrada de 1 ou 2 euros -- e o negócio já dá para pagar o altar e sobra algum lucro.
escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -24- 5 mil milhões e 25


O contraponto: a CIP e outros patrões recusam o aumento de 25€ mensais no salário mínimo, para um total de 475€ mensais.


escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -23- as migalhas do banquete

Viveram-se

[viveram]
momentos históricos em Portugal, nos últimos dias.

Os chefes máximos dos países ibero-americanos juntaram-se em Lisboa. Discutiram, seja lá isso
[aplicado a eles]
o que for. Chegaram a conclusões sem objecções
[diz o primeiro de Portugal],
mas com algumas
[diz o primeiro-mor do Brasil].
Tudo muito importante
[o suficiente para o aguardado Chávez nem aparecer e o primeiro-mor do Brasil não ficar por cá senão o tempo suficiente para ser visto].
Suficientemente importante para haver tempo suficiente para uns banquetes
[é à mesa, diz-se, que se tomam as grandes decisões. Que seja!]
e as primeiras-damas se passearam por museus e sítios turísticos
[e a primeira-dama republicana de Portugal se mostrar às televisões, ao lado da rainha espanhola, estabelecendo "laços afectivos muito importantes" entre os cônjuges e movimentando-se, desgolada e desconjuntadamente, de parola-perna-aberta; juro que pensaria dela uma coisa má, não fosse a certeza de o austero esposo parecer ser alérgico a álcoois e, portanto, não lhe permitir abusos dessa natureza].
E entrou em vigor um tratado com o nome de Lisboa. Uma coisa deslumbrante, como sabem todos os portugueses que votaram a favor do dito
[como tinha sido prometido em campanha eleitoral, e foi cumprido, pelo governo do pê-èsse]
e os muitos europeus que com o seu voto apoiaram o voto dos portugueses. Um brilhante modelo de democracia popular...

... ...

E o povo, pá?

[tinha 10,2% em Outubro -- e já tinha o valor de desemprego mais alto desde que há memória escrita; agora, em Dezembro, tem mais, de certeza].
Tem uma crise que serve de desculpa a tudo, incluindo os milhões de lucros de algumas empresas e os despedimentos de muitos trabalhadores. Tem um governo que atira foguetes para o ar...

...e as promessas de alguma música servida por uma orquestra juvenil inspirada numa outra de louvável iniciativa venezuelana. Valha-nos Deus, que sempre nos atira algumas migalhas do banquete...

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -22- o anjo e o demónio

Isto continua tudo mal. Em três dias, recorda o Público de hoje, o presidente do Real Madrid deu 160 milhões de euros por Ronaldo (94 milhões) e Kaká. E pergunta-se: Depois da surpresa, o choque. O fim da "novela" Real Madrid-Cristiano Ronaldo, com a confirmação da saída do português de Manchester levanta a pergunta: é o preço certo ou o futebol enlouqueceu?

Cá por mim,não acho mal: se o miúdo sabe dar uns pontapés na bola, não há-de ganhar (e dar a ganhar) umas c'roas valentes? Isto só prova que o sistema capitalista, com a defesa da liberdade de negociação e da iniciativa privada é o melhor dos sistemas. Louvado seja Deus por nos ter dado tal sistema e continuar a preservá-lo.
Toda a gente aponta o dedo a Florentino Pérez, neste come back ao Real Madrid do empresário espanhol. Depois de uma primeira investida no início do século, quando irrompeu com a era dos "galácticos" no futebol espanhol e mundial (entre 2000 e 2006), os 94 milhões de euros oferecidos agora ao Manchester United para ter Cristiano Ronaldo provocaram um terramoto no mercado de transferências. Em três dias, o presidente madridista deu 160 milhões por Ronaldo e Kaká (65 milhões ao Milan). E quer mais. David Villa, cujo Valência não admite negociar abaixo dos 38 milhões, pode ser o senhor que se segue. É demasiado e o mercado tem de ser regulado, dizem políticos, académicos e, claro, gente ligada ao futebol.

O Presidente da República (PR), Cavaco Silva, pode servir como barómetro. Habitualmente criterioso nos assuntos de que fala em público, o PR português comentou ontem a ida do "capitão" da selecção portuguesa para o Real Madrid. "Nunca me passou pela cabeça que um dia se pudesse pagar quase 100 milhões de euros pela transferência de um jogador de futebol", disse Cavaco à Rádio Renascença. E, embora desejasse "felicidades" ao jogador madeirense, concordou com aqueles que disseram que "se tinham ultrapassado os limites", acrescentando que "gostaria que Portugal fosse mais conhecido pela inovação, modernização tecnológica, competitividade e também pela participação nas eleições europeias".

Para o director-geral da Associação das Ligas Europeias de Futebol Profissional (EPFL), o negócio de Ronaldo cria uma "pulsão inflacionista", cujos reflexos irão estender-se ao nível dos outros clubes. "Vai contribuir para agudizar a visão inflacionista dos últimos anos", diz Emanuel Medeiros, lembrando que esta aposta vem em "contraciclo" com a pedagogia que a EPFL tem feito para sensibilizar os clubes ao equilíbrio financeiro.

O líder do Real Madrid não vê assim as coisas. "Este modelo é o único que funciona, o desportivo e o económico", respondeu Florentino Pérez quando lhe perguntaram pela rentabilidade das suas contratações multimilionárias.

O presidente da UEFA está do outro lado da barricada. "Isto põe em causa o fair-play económico e o equilíbrio das nossas competições", disse Michel Platini quando soube do negócio. E foi de encontro às palavras de Medeiros. "A UEFA trabalha com os clubes para conseguir criar um sistema de regras que permitam sanear os fundos financeiros do nosso futebol", afirmou, chamando-lhe "prioridade".

Mas Pérez parece ter um aliado na presidência da FIFA, o organismo que tutela o futebol mundial. Sepp Blatter afastou, ontem, qualquer pessimismo quanto a uma possível ruptura financeira no futebol, frisando que o desporto com mais adeptos no planeta passa ao lado da crise económica. "Estamos numa altura muito sensível, mas o futebol continua a ser um produto fantástico. Não para comprar e vender, mas um produto que dá às pessoas aquilo que elas querem - emoções. Elas querem as estrelas", disse o dirigente suíço.

"Há dez anos, um quadro de Picasso do período azul foi vendido em Londres por 100 milhões. E o que lhe aconteceu? Alguém o escondeu algures para ninguém o conseguir ver. Ninguém o consegue ver, mas toda a gente consegue ver um futebolista uma ou duas vezes por semana, ele está lá, é uma estrela", justificou.
O dirigente da EPFL, Manuel Medeiros, lembrou, por outro lado, a "corrida às armas" iniciada há dez anos, em Itália, quando o "acórdão Bosman" veio, nas suas palavras, liberalizar o mercado, sendo responsável por uma maior circulação de jogadores. Isto, aliado ao despertar do eldorado televisivo, fez disparar as transferências.

Efeito de contágio

Fora do mundo do futebol, as reacções ao negócio que envolve Cristiano Ronaldo vão quase todas no mesmo sentido. Após a surpresa pelos números envolvidos em tempo de crise, surgiu uma onda de interrogações e até de condenação. Em França, a ministra da Saúde e Desporto, Roselyne Bachelot, considerou "imoral" o preço pago pelo Real Madrid, dizendo que este caso prova que é necessária "mais regulação".

Se esta declaração suscita a curiosidade de vir de um governante da direita (tendencialmente a favor do livre mercado), a verdade é que o comentário do seu homólogo britânico, Gerry Sutcliffe, demonstra que as preocupações atravessam todo o espectro político-ideológico. O governante britânico, membro de um Governo trabalhista, confessou que os valores embolsados pelo Manchester United (clube do qual, por acaso, até é adepto) o deixaram "inquieto".

Wladimir Andreff, professor de Economia da Universidade de Sorbonne, considera, em declarações ao PÚBLICO, que a verba a pagar pelo clube merengue "é uma loucura". Especialista em matéria de Economia, Finanças e Desporto, Andreff é um dos autores do estudo encomendado pelos ministros da tutela dos Vinte e Sete da União Europeia, sobre financiamento do Desporto. Não acredita que os governos tenham "a coragem e a força para impor mais regulação" financeira ao futebol, como tem vindo a acontecer noutros sectores económicos. "Isso tem de ser resolvido por auto-regulação, que é a via indolor. Ou então, pela via mais dolorosa, virá com a falência de alguns colossos, como aconteceu na banca", sublinha.

Não tem dúvidas de que a transferência de Ronaldo pode enlouquecer o mercado, porque "quem tem os bolsos cheios de dinheiro pode facilmente perder a cabeça". O volume de transferências nas maiores ligas europeias mostra exactamente isso (ver gráfico). A primeira era "galáctica" do Real gerou uma euforia que se estendeu para lá de Madrid. "Há um sério risco de contágio, sobretudo porque em Espanha e Inglaterra praticamente não há regulação, ao contrário de Alemanha e França, onde há algum controlo, mesmo que imperfeito", alerta o académico, vincando que as primeiras vítimas serão "a concorrência e os clubes pequenos".

Três académicos espanhóis analisaram o "mercado mundial dos jogadores de futebol de alto nível" e formaram uma teoria. Depois de definirem um jogador de alto nível como aquele cuja aquisição custa 10 milhões de euros ou mais, verificaram que, entre 2000 e 2007, o mundo do futebol assistiu a 278 transferências de alto nível.

A partir deste grupo, identificaram os seguintes factores que influenciam o preço: idade, equipa que compra e que vende, posição do jogador em campo e estatuto (promessa, internacional ou estrela - sendo este um internacional e candidato ao prémio FIFA World Player). Além disso, conta a nacionalidade, a liga compradora e a vendedora, o agente e local de formação. Com Ronaldo, Florentino Pérez encerrou um ciclo em que já gastou 351 milhões de euros com seis vencedores do maior título individual, a "Bola de Ouro".
O El País de ontem acentuava o facto de os 94 milhões serem pagos em tempo de crise.

Ronaldo Real Madrid[descarregue daqui]

L'Équipe destaca a influência na banca:

Ronaldo Real Madrid [descarregue daqui]

La Gazzetta dello Sport trata o caso sob o título O anjo e o demónio:

Ronaldo Real Madrid[descarregue daqui ou daqui]

Ontem, o mesmo jornal desportivo italinao gritava na primeira página: Assim não vale!

Ronaldo Real Madrid[descarregue daqui ou daqui]

escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -21- a média da galp

Dava, ontem e aqui, notícia de duas subidas por semana dos preços dos combustíveis, nas últimas semanas. Para não baixar a média, a Galp hoje surpreendeu-me (nada) com o primeiro aumento desta semana: a gasolina 95 aumentou de 1,282€ para 1,294€ o litro.

F...-se! não haverá quem ponha mão nisto? este sistema anda assim ao deus-dará
[quero dizer, ao galp-tirará]?
escrito por ai.valhamedeus

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ANDA TUDO MAL... -20- até para os gestores

[bartoon rapinado do Público de ontem]

[o anterior Anda tudo mal tem o título até para a galp]

escrito por ai.que.me.foram.ao.bolso.outra.vez.com

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ANDA TUDO MAL... -19- até para a galp

A caminho do trabalho, passo (quase) inevitavelmente, por um posto da Galp, com os painéis dos preços dos combustíveis de tal modo visíveis que, (quase) inevitavelmente, tenho que os ver.

É por isso que, (quase) todas as semanas, mais do que um dia, chego ao emprego com o dia irritado.

A semana passada, foram duas irritações: a gasolina subiu duas vezes, 1 cêntimo de cada vez. A semana anterior a essa, tinha tido duas outras: uma subida de 3 cêntimos e uma segunda, de 2 cêntimos. Tudo somado, a "minha" gasolina subiu de 1,212€ para 1,282€. 7 cêntimos em duas semanas.

Mas eu sou daqueles que entendem. A Galp, dizem, compra o crude mais caro. Não sei se compra, mas, se compra mais caro, é lógico que venda os combustíveis mais caros. Só me custa a entender é por que razão, comprando eu com o meu salário os combustíveis, me não sobem o salário quando sobem os combustíveis. Mas concedo que deve haver uma qualquer razão séria e secreta que torne lógica esta falta dela.

E há ainda outra razão, esta manifesta: os gestores precisam de ganhar mais umas c'roas, para pôr o País a funcionar e, neste caso, pôr os combustíveis a chegar aos nossos automóveis. Uma questão de gratidão, portanto. Vejo, na imagem abaixo reproduzida, o que ganham alguns desses senhores em prémios -- e, contas bem feitas, não ganham nenhum balúrdio. Em prémios, um pouquito mais do que o salário mínimo. Um pouquito mais, mas nada que não mostre que a vida está feia para toda a gente, mesmo para os gestores
[se não conseguir ler que, por exemplo, Ferreira de Oliveira, da Galp, vai mamar, este ano, 211 mil € em bónus, clique na imagem para a ampliar e confirmar].

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ANDA TUDO MAL... -18- uns nem tanto

Sei que, com este "post", vou ficar fora de moda
[lembra-se do último anda tudo mal?].
Cantigas destas já se não usam, bem sei. Mas, perdoe-se-me, às vezes é preciso recordar que não é só de agora que... uns vão bem e outros mal. E que assim se faz Portugal há muito tempo.



Senhoras e meus senhores, façam roda por favor
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor, cada um com o seu par
Aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar
Senhoras e meus senhores, batam certos os pézinhos, como bate este tambor
Não queremos cá opressores, se estivermos bem juntinhos, vai-se embora o mandador
Vai-se embora o mandador

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares
Mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares
Para que servem essas casas, a não ser para o senhorio viver da especulação
Quem governa faz tábua rasa, mas lamenta com fastio a crise da habitação
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

Tanta gente sem trabalho, não tem pão nem tem sardinha e nem tem onde morar
Do frio faz agasalho, que a gente está tão magrinha da fome que anda a rapar
O governo dá solução, manda os pobres emigrar, e os emigrantes que regressaram
Mas com tanto desemprego, os ricos podem voltar porque nunca trabalharam
E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

E como pode outro alguém, tendo interesses tão diferentes, governar trabalhadores
Se aquele que vive bem, vivendo dos seus serventes, tem diferentes valores
Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar
Que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar
Segura bem o teu par, que o baile vai terminar

Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

[Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978]

escrito por ai.valhamedeus [com um abraço para o Xico K'muna]

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